Previsão de chuvas acima da média em Santa Catarina com El Niño muito forte exige atenção imediata ao desenvolvimento do arroz, prevenção de doenças e preparo das indústrias para custos maiores
A expectativa de volumes de chuva acima da média para a primavera e o verão em Santa Catarina acendeu um alerta para o setor do arroz.
O cenário, associado a um El Niño classificado como muito forte pelo CPC, pode reduzir produtividade e elevar a incidência de doenças nas lavouras.
Produtores e indústrias precisam ajustar manejo e processos, conforme informação divulgada pela Epagri/Ciram e pelo SindArroz-SC.
Impactos no campo e na indústria
O risco de chuvas frequentes e temporais, com raios, granizo e vendavais, aumenta a possibilidade de danos físicos às plantas, de dificuldade de acesso às lavouras e de queda na produtividade.
Na indústria, há preocupação com a qualidade do grão, porque a entrada de matéria-prima com maior número de grãos danificados implica em seleção mais intensa e menor rendimento.
Como ressalta Walmir Rampinelli, presidente do SindArroz-SC, “Quando recebemos um arroz com maior quantidade de grãos danificados, a indústria precisa intensificar o processo de seleção para garantir a qualidade do produto que chega ao consumidor. Isso representa um custo maior de beneficiamento e uma perda no rendimento, já que parte dos grãos precisa ser descartada. Ou seja, além da redução na produtividade no campo, temos um impacto direto no aproveitamento da matéria-prima dentro das indústrias”.
Por que as chuvas acima da média prejudicam o arroz
O excesso de chuva reduz a radiação solar disponível para as plantas, prejudicando o crescimento e, em consequência, a produtividade.
O engenheiro agrônomo Douglas George de Oliveira, especialista em arroz irrigado da Epagri, reforça que “A constância de dias chuvosos também reduz a incidência de radiação solar, fator essencial para o crescimento do arroz. Sem contar que uma quantidade maior de chuva aumenta o número de dias nublados, o que reduz a entrega de radiação solar para as plantas se desenvolverem. Isso já compromete a produtividade”.
Além disso, a combinação de chuva persistente, temperaturas mais altas e umidade cria ambiente favorável a doenças fúngicas, que afetam o desenvolvimento e a qualidade do grão.
Riscos fitossanitários e prevenção
Entre as doenças preocupantes está a mancha-parda, ou mancha-de-grãos, que prospera em condições úmidas, com baixa radiação solar e temperaturas elevadas, cenário que pode se intensificar com o El Niño.
O doutor em agrometeorologia Márcio Sônego, da Epagri, alerta que “O El Niño tem risco maior de temporais com ventania e granizo, o que pode causar danos pontuais, localizados. O maior dano é o excesso de chuva com umidade, mais manchas de colmo, que faz o arroz cair com os vendavais, e o menor índice de radiação solar”.
Para reduzir riscos, o manejo precisa priorizar práticas que minimizem a permanência de umidade nas plantas, monitoramento constante de doenças e planejamento para aplicação de defensivos quando houver janela meteorológica segura.
Projeções e recomendações para a safra 26/27
Os dados da Epagri/Cepa projetam uma “redução de 7,3% de produtividade média em relação à safra 25/26” para a safra 26/27, mesmo sem alteração na área plantada.
Em fases iniciais da cultura, parte dos impactos pode ser recuperada, porém se a instabilidade se prolongar até janeiro, período de floração, os prejuízos tendem a ser mais significativos.
Os produtores são aconselhados a não manter a expectativa de produtividade igual à do ano passado, pois “não adianta fazer os mesmos investimentos e esperar colher o mesmo, pois dificilmente deve se concretizar. O produtor tem que ter em mente que não consegue compensar o problema climático aplicando mais insumos, como o adubo”, conforme orientação de especialistas da Epagri.
O papel das indústrias e da cadeia
O Sindicato das Indústrias do Arroz de Santa Catarina, fundado em 1975, representa 27 indústrias associadas e reforça a necessidade de diálogo com produtores para ajustar logística e processos de beneficiamento.
A rizicultura catarinense é responsável por 15% do abastecimento nacional, e impactos na produtividade e na qualidade do grão podem refletir em custos e oferta, afetando a cadeia em várias regiões do país.
Com o El Niño previsto para permanecer até maio de 2027, segundo a Epagri, a recomendação é que produtores e indústrias adotem medidas preventivas, acompanhem previsões meteorológicas e revisem planos de manejo para mitigar efeitos das chuvas acima da média nos próximos meses.
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